doméstica

posso colar trechos de poemas no vidro do banheiro
e ler sob a água morna das palavras
recentes
não os poemas, mas o que escorre deles
a água marrom da bile ou vesícula
profilática
e, na verdade, tanto faz o órgão
tanto faz o assunto

venerar porcelanas branquíssimas, na lasca faltante
e a perspectiva do café em manchá-la

lavo com bastante detergente, enxáguo
trato-as como se fossem meus dentes
porque assim me parecem

[qualquer hora jogo listerine nelas]

assisto o espanador pairar sobre os livros
e é quase como se os lesse
mas melhor.

eco

procuro em poemas
alheios
um solo firme pra pisar
preciso de chão
para andar com palavras

não há
é tudo molécula
imaginária
com infinitas
distâncias ente o centro
e as bordas

[nada é verdadeiramente palpável no poema]

atiro pedrinhas nele
pra verificar
a fundura do texto
e estática,
aguardo por resposta

não há
eco possível
naquilo que é terra
e ao mesmo tempo
sombra, água
neblina
desastre, maré, buraco
silêncio, areia
linguagem

resolvo, então, gritar

o poema me responde
na mesma intensidade:
voz.

esse magma chamado mar

escrever escrever escrever escrever escrever escrever escrever escrever escrever até a margem

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eu terra

sempre gostei da palavra island.
talvez por causa desse som elíptico do ésse ou talvez, sei lá, por outra coisa que não se explica.

o fato é que me impressiona essa afirmação que a terra faz aos quatro ventos ao mar: eu, terra, resisto às tuas águas.